O Evangelho não desce para trabalhar num terreno virgem, mas num já poluído por mil delitos. É necessário enfrentar um trabalho imenso, porque se trata de corrigir, de reeducar de novo, reedificar o que está mal construído.

Não devemos esconder a realidade e ignorar as dificuldades que encontra na terra a aplicação do Evangelho. O passado animal está muito próximo ainda, para que não se ressinta toda sua tremenda influência. Transformar o próprio tipo e forma mental e transportar-se para viver num plano biológico mais alto, representa um trabalho profundo que não pode improvisar-se. Sem dúvida, o Evangelho quer ensinar ao homem coisas nobres e grandes para o futuro. Mas podemos perguntar a esse homem: que lhe ensinou o passado? As virtudes da prepotência e do egoísmo, ou as da mentira, principalmente. As tão declamadas civilizações da história só puderam aplicar ligeiros vernizes por cima da originária ferocidade dos animais. E no trabalho de educá-los, voltamos sempre ao início, porque educá-los significa refazê-los totalmente.

Teremos já pensado de quantas dezenas ou centenas de milênios são fruto os instintos atuais? Houve mister adquiri-los para sobreviver, porque só vivia quem os possuísse. Eles constituem o nosso sangue, fazem parte de nossa carne. A luta pela vida pode ter selecionado o mais forte, mas em redor do vencedor quantas ruínas, contorções e revoltas naqueles que tiveram de adaptar-se a viver como vencidos! Todas as prepotências que os fracos tiveram de engolir à força, estão prontas a regurgitar à procura de uma desforra que lhes dê satisfação. Todas as experiências vividas permanecem escritas em nossa carne e reclamam compensação. A humanidade viveu até agora de delitos. E isto não pode cancelar-se com um golpe. Cada causa deve ter o seu efeito. E o mundo continua a cometer injustiças, julgando que lhe baste a força para fazer calar e anular as reações.

O Evangelho não desce para trabalhar num terreno virgem, mas num já poluído por mil delitos. É necessário enfrentar um trabalho imenso, porque se trata de corrigir, de reeducar de novo, reedificar o que está mal construído. É preciso desentrançar esta carga de explosivos que quer estourar, e ter a força de engolir esse triste passado, neutralizando tanto mal com outro tanto de bem, que é indispensável cada um possuir em si para poder expandi-lo em torno de si.

A humanidade está verdadeiramente onerada por uma carga de iniqüidade que lhe paralisa a subida, mas que precisa ser anulada de qualquer forma, seguindo a estrada oposta, substituindo a guerra pela paz, o ódio pelo amor, pois não há outro meio de anular o passado e dele libertar-se. Ele nos perseguira e esmagará, enquanto não o soubermos vencer.

Do livro "Evolução e Evangelho" , capítulo 3




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